A Copa do Mundo eleva a paixão pelo futebol ao ápice. Vestir a camisa da Seleção é a forma mais tradicional de manifestar apoio à uma nação em festa. O hábito de usar camisas de times no dia a dia é febre nacional, e para alguns se tornou até um estilo de vida. Há torcedores apaixonados por colecionar peças únicas de equipes do mundo todo, mas principalmente itens raros da camisa mais vitoriosa da história das copas.
Há 24 anos, a “Amarelinha” recebia a sua quinta estrela, eternizando o pentacampeonato mundial de 2002 e consagrando o Brasil como o maior vencedor do torneio. Os jogadores de 2026 que buscam o próximo feito inédito vestem não apenas um uniforme, mas a história e a esperança de milhões de brasileiros.
Fora dos gramados, as camisas de futebol representam a paixão pelo esporte mais popular do país. E foi esse espírito que levou um brasileiro para o livro dos recordes.
Maior coleção de camisas de futebol do mundo é brasileira
Cássio Brandão possui um acervo de mais de 8.200 camisas de futebol. Desse total, cerca de 400 são da Seleção Brasileira, mais de 400 de outras equipes nacionais, cobrindo quase 200 seleções diferentes do planeta.
O feito garantiu a ele o reconhecimento oficial do Guinness World Records em 2024 como o maior colecionador de camisas de futebol do mundo. Brandão conta que sua trajetória foi moldada pelas memórias da Copa do Mundo de 1994, nos Estados Unidos:
“A Copa de 94 foi uma paixão absurda. É o meu primeiro título, é a Copa de um menino que tinha 13 anos e era apaixonado por futebol. Desde então, a Copa do Mundo exerce um fascínio na minha vida. Colecionar camisas de seleções também é um exercício de entender o mundo, de pensar geografia, de relembrar o título do Brasil de 94 e exercer essa paixão que é tão importante na minha vida.”
O colecionador tem todas as camisas que a Seleção Brasileira usou desde o ano de 1959. Ainda não conseguiu um exemplar do ano anterior, 58, quando o amarelo tornou-se a cor oficial da equipe. Ele cita, como destaques da coleção, as vestes das Copas de 1970, 1978, 1994 e 2002. O acervo inclui peças oficiais ou de jogo de vários atletas históricos, como Pelé, Ronaldo, Lionel Messi e Zidane.
O colecionismo, como relata o empresário, conta com uma rede de apoio de familiares, profissionais que atuam no futebol e outros colecionadores — inclusive de fora do Brasil — para conseguir itens novos para a coleção.
O essencial, depois da captação, é manter um cuidado rigoroso com a integridade dos tecidos. “Nosso escritório tem controle de temperatura, controle de umidade e telas solares — porque o pior que pode acontecer é a incidência de sol, que queima a camisa —, além de controle de iluminação”, explica Cássio.
A camisa da época de campo de Carlo Ancelotti
O colecionismo depende de uma enorme rede de contatos para acontecer, como destaca Durval Lima, dono de um acervo de quase 3 mil peças. A coleção dele, além das camisas, conta com um card informativo de cada peça.
Assim, como comenta o colecionador, ele pode preservar a importância emocional por trás dos objetos. “Essas camisas contam as histórias não só delas ou de jogos específicos, mas a história das próprias pessoas, em momentos especiais e de momentos com a família. São lembranças que elas trazem além do jogo em que foram participantes”, reflete.
Entre as camisas especiais de Durval, estão uma de Pelé no Santos, autografada pelo próprio rei do futebol. A camisa de Ronaldinho Gaúcho na Copa de 2006 também foi assinada pelo rei. Durval ainda tem uma camisa da FIFA World Stars, time de craques internacionais, usada em um jogo humanitário para os órfãos da Bósnia e Herzegovina em 2000, sediado na cidade de Sarajevo.
Algumas peças ganham um significado inesperado com o passar do tempo. Durval tem uma camisa da seleção da Itália que pertencia a Carlo Ancelotti, o atual treinador da Seleção Brasileira, da época em que ele era jogador:
“É uma camisa que eu já tinha há muito tempo e não tinha uma pegada especial. De repente, ela criou uma importância acentuada no acervo porque ele acabou vindo para o Brasil e sendo, hoje, o técnico da nossa Seleção”, conta Durval.
A ‘Amarelinha’ do Hexa?
Em clima de Copa do Mundo, o Museu do Futebol, em São Paulo, promove a exposição ‘Amarelinha’, com diversas camisas da Seleção Brasileira. A mostra reúne itens dos acervos de cinco colecionadores e fica em cartaz até setembro.
Para Letícia Marcolan, pesquisadora plena do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, mantido pelo Museu, existe uma importância histórica por trás das coleções de camisas. Ela destaca que a exposição proporciona acessibilidade aos torcedores:
“Quando a gente exibe essas peças do museu, a gente dá acesso a elas. Às vezes, o mundo do colecionismo pode ser restrito, afinal são peças de alto valor. Acho que faz as pessoas se interessarem mais.”
Um dos apoiadores da mostra é o recordista Cássio Brandão. Ele cedeu uma camisa de 2018 do zagueiro Thiago Silva e outra de 2022 do atacante Vinícius Júnior. Cássio vê a preservação da história do esporte como uma missão de vida e carregada de responsabilidade. “Tem uma responsabilidade muito grande em continuar preservando a história do futebol, e eu vou tentar fazer isso até o último dia da minha vida”, explica. Para ele, na essência, a coleção representa muito mais:
“Ela representa a paixão de um menino que cresceu na periferia de São Paulo, que desde 1990 é apaixonado por futebol e por Copas do Mundo e que tenta, com muito cuidado e com muito respeito, transmitir isso, não só para os meus três filhos hoje, mas para todo mundo que é apaixonado por futebol.”
É com essa paixão e espírito de esperança que a torcida brasileira acredita em um novo recorde: o hexacampeonato. A sexta estrela promete deixar a Amarelinha ainda mais pesada. A esperança é de que, daqui alguns anos, a camisa da Seleção Brasileira de 2026 carregue mais essa história.





